O que o sucesso de Homem-Aranha: Um Novo Dia explica sobre o momento atual do cinema

O que o sucesso de Homem-Aranha: Um Novo Dia explica sobre o momento atual do cinema

2026 é um ano diferente para o cinema. Desde a volta da pandemia, nunca tivemos salas tão cheias e bilheterias gigantescas, tanto de filmes muito aguardados como Toy Story 5 e Michael, quanto para surpresas como Devoradores de Estrelas e Obsessão. Mas, claro, os grandes fenômenos da temporada até aqui são A Odisseia, de Christopher Nolan, e o sucesso estrondoso de Homem-Aranha: Um Novo Dia.

Veja a seguir: Ranking dos filmes do Homem-Aranha, do pior ao melhor

De onde veio esse sucesso para Homem-Aranha?

Não são poucas as indagações nas redes sociais sobre os motivos para esse sucesso tão grande do quarto filme de Tom Holland no papel de Peter Parker. O que me espanta é ver que muita gente ou não entende a dimensão do que é o Homem-Aranha na cultura popular ou que não faz ideia do quanto esse personagem é relevante.

Ainda assim, realmente surpreende os recordes e números alcançados em tão pouco tempo. Na data da publicação deste artigo de opinião, o filme já soma 1,7 bilhão, sendo mais de 1 bilhão somente na bilheteria estrangeira (fora dos EUA).

Diferente de Sem Volta para Casa, que acabou sendo um filme evento tanto pelo retorno do cinema pós-pandemia quanto pelos rumores das presenças de Tobey Maguire e Andrew Garfield, Um Novo Dia claro que tinha os atrativos do Hulk de Mark Ruffalo, do Justiceiro de Jon Bernthal e da misteriosa personagem de Sadie Sink, mas nenhum deles é a razão para o sucesso bizarro que esse filme vem fazendo.

Fadiga de heróis ou de filmes ruins?

Seria ingenuidade dizer que não é verdade que há um certo desgaste com filmes de super-heróis. Não só filmes, como séries também. O que a Marvel fez de 2008 a 2019 jamais será replicado, nem por ela mesma.

A pandemia fez os executivos acharem que quantidade seria melhor do que qualidade. Lembre que entre 2021 e 2022 tivemos quatro a cinco séries da Marvel saindo por ano no Disney+.

Filmes como Shang-Chi, Eternos, Viúva Negra, entre outros sendo lançados. Havia coisa boa ali, mas a realidade da conexão com o espectador já não era mais a mesma.

Essa fadiga, pra mim, fica evidente no novo DCU de James Gunn. Superman foi um bom filme, mas nem chegou perto de superar 700 milhões. Foram anos de desgaste com o antigo universo (DCEU) e a própria marca da DC, como o fracasso colossal de Supergirl (até mais desmedido do que merecia) demonstra. A própria Marvel, em 2025, não emplacou sucessos.

Só que muito mais do que cansaço de super-heróis, o verdadeiro problema é a industrialização da arte. A preocupação em fazer cinema não era mais ter uma história para contar, mas um número a ser batido, uma meta a ser alcançada.

Foi necessário ter uma pausa de cinco anos entre filmes do Homem-Aranha para que tivéssemos um longa bem realizado, com cenas gravadas em locações e não somente em estúdio. Efeitos práticos. Uniforme feito de verdade. E tudo isso faz diferença.

Qual é a lição que fica?

Hollywood precisa entender os recados. O público não quer ver mais 5 filmes de heróis por ano nos cinemas. Ele quer ver filmes bem realizados e que façam sentido dentro da lógica de consumo.

Thunderbolts é um ótimo filme, mas que fracassou na bilheteria. Isso é motivo para repensar. Seria melhor fazer de outra forma? Vender melhor o filme? Isso é algo para as empresas pensarem. Mas o que Homem-Aranha: Um Novo Dia ensina é que ainda há espaço para conexão do público com esse tipo de personagem. O Aranha é um caso diferente, pois ele já é um ícone gigantesco da cultura popular. Será que somente os personagens “classe A” se sustentarão nas telonas fora dos filmes-evento? Pode ser que isso aconteça.

Existem contradições e incertezas, as vezes um filme de qualidade pode não performar bem por não ter um chamariz tão grande (como citei o exemplo de Thunderbolts). O que me parece é que público continua disposto a consumir filmes de super-heróis, desde que eles sejam protagonizados por personagens com forte conexão (seja cultural, nostagia ou sensação de continuidade de uma saga) e não como produtos fabricados em série.

O que espero é ver o cuidado em contar histórias com profundidade, bem feitas tecnicamente e que não sirvam somente ao propósito de somar quantidade, seja de dinheiro ou de lançamentos por ano.

Sobre o Autor

Heider Mota
Heider Mota
Baiano, 30 anos, jornalista. Gosto de dar meus pitacos sobre filmes e séries por aqui.