Crítica | Aquele Sobre o Matthew Perry (2026)

Crítica | Aquele Sobre o Matthew Perry (2026)

Os fãs de Friends aguardavam com grande expectativa a minissérie documental Aquele sobre o Matthew Perry, lançada pela Netflix. A produção prometia detalhar a vida e a carreira do nosso querido Chandler Bing, debruçando-se em especial sobre o período de gravação da série e as duras batalhas do ator contra os vícios. Pois bem, os três episódios são densos e difíceis de assistir, especialmente para quem considerava Chandler o melhor personagem de Friends e Perry um artista de grande talento e carisma.

Com depoimentos sensíveis de familiares, amigos, namoradas e pessoas próximas, o documentário aprofunda com qualidade todas as dificuldades enfrentadas pelo ator ao longo da vida. O retrato doloroso de sua intimidade contrasta fortemente com os sorrisos e tiradas cômicas que marcaram sua atuação na televisão.

A dor daquele que nos fazia sorrir

Perry cresceu em uma família dividida: o pai morava na Califórnia, enquanto a mãe vivia no Canadá. Por conta disso, conforme aponta o documentário, ele sempre teve dificuldades com a aceitação e mirou na carreira de atuação a solução para preencher esse vazio. Me chamou a atenção uma frase do ator, retirada diretamente de seu livro autobiográfico Amigos, Amores e Aquela Coisa Terrível – indico a leitura, por sinal -, que diz: “Deus, podes fazer o que quiser comigo, mas, por favor, me torne famoso”. Essa linha resume praticamente a tônica de toda a produção.

O livro, narrado pelo próprio Matthew, é, na minha opinião, ainda mais impactante – especialmente nos momentos de maior sofrimento psicológico. No entanto, a minissérie consegue apresentar muito bem a complexa personalidade do ator, utilizando citações diretas de sua obra literária e combinando-as com depoimentos que mostram como as pessoas ao seu redor percebiam seus amores e dependências.

Destaco aqui o depoimento da irmã, Mia Perry Bowick. Ela entrega as falas mais pesadas e surpreendentes da série, capturando com precisão o desespero de quem testemunhava os problemas de Matthew de perto e se sentia incapaz de fazer algo para salvá-lo. O vício que marcou a vida do ator, seja em medicamentos ou bebidas, o transformava fisicamente nas telas e parecia ser um obstáculo do qual ele simplesmente não conseguia se pular. Sempre havia uma recaída.

Inclusive, outro ponto positivo do documentário é o modo como aborda a investigação sobre a trágica morte de Matthew. Com todos os culpados já julgados pela justiça, a série pôde escancarar o desfecho melancólico de um dos comediantes mais queridos de sua geração. Aliás, é assustador analisar como a personalidade do ator se confundia com o personagem que o tornou mundialmente famoso. As ironias do destino colocaram manias, trejeitos, vícios e traços de personalidade alinhados – embora o destino final de Chandler Bing estivesse longe de ser trágico.

Faltou o elenco de Friends?

O elenco principal de Friends se recusou a participar da série documental. No entanto, a produção compensa parcialmente essa ausência resgatando gravações de arquivo e memórias de outros depoimentos sobre como eles lidaram com a situação vivida por Matthew e reagiram ao seu fim precoce. Embora a presença deles na tela fosse um acréscimo valioso, faz total sentido ético e pessoal que tenham optado pelo afastamento.

Para quem é fã, Aquele sobre o Matthew Perry é uma obra emocionante sob vários aspectos, mas, principalmente, por nos permitir compreender mais a fundo a os tormentos por trás de uma das figuras mais marcantes da comédia televisiva. O nosso eterno Matthew Perry.

Sobre o Autor

Leonardo Pereira
Leonardo Pereira
Jornalista. Repórter no Folha do Mate, podcaster no Na Tabela e HTE Sports. Pitacos sobre cinema e cultura pop no Entre Sinopses.