Crítica | Carrie, a Estranha (2026)

O Amazon Prime Video, junto ao diretor Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill e Missa da Meia-Noite), lançou mais uma adaptação de Carrie, a Estranha, livro homônimo de Stephen King publicado em 1974. Com uma nova roupagem, a proposta desta versão é adaptar a história clássica de terror para um mundo digital e altamente conectado. No entanto, ainda que tenha seus momentos marcantes, pode ser considerada a versão mais frágil da trama até aqui.
Ainda que louvável, a tentativa de trazer uma narrativa mais contemporânea acaba por abandonar grande parte do enredo que tornou Carrie tão famosa – em especial, o fanatismo religioso. O Entre Sinopses assistiu à nova série de Carrie, a Estranha e traz, em detalhes, o que deu certo e o que não funcionou!
Qual é a trama da série Carrie, a Estranha?
Após a morte do pai no trabalho, Carrie White (Summer H. Howell) e a mãe, Margaret (Samantha Sloyan), são encontradas pela polícia na sua residência. Elas, junto do falecido pai, viviam em reclusão em decorrência de crenças religiosas rígidas e teorias da conspiração. A partir disso, filha e mãe precisam se adaptar a esse novo universo, em especial ao mercado de trabalho e ao ambiente escolar.
A diferença principal, tanto em relação ao livro de Stephen King quanto às adaptações anteriores de terror, é o contexto em que a trama está inserida. Carrie precisa se adaptar ao mundo tecnológico dos anos 2020 e a todas as suas peculiaridades. Ela, uma menina inteligente, mas ingênua, demora a conseguir fazer amizades e entender a nova rotina. Enquanto isso, a mãe enfrenta dificuldades para aceitar a hierarquia no trabalho e a situação imposta à filha.
Faltam Carrie e o elemento de terror na série
Se você retirar o título Carrie, a Estranha, a produção encabeçada por Mike Flanagan poderia ser apenas mais uma série adolescente de mistério com uma pegada sobrenatural. Três aspectos essenciais da obra original de King foram reduzidos aqui: o fanatismo religioso, a maldade e transformação de Carrie, e a relação conturbada entre mãe e filha.
A aposta de Flanagan em desenvolver o bullying virtual e o impacto das redes sociais na vida dos adolescentes ocupa tempo demais de rodagem. Ainda que a premissa seja interessante para os dias de hoje, por diversas vezes parece que o espectador está perdendo tempo com um arco que não leva a lugar algum. Aliás, é um foco mal desenvolvido ao longo dos episódios.
Abusando de conveniências narrativas, a trama entrega personagens e arcos superficiais. Figuras como a jovem Sue Snell (Siena Agudong) e o professor Harold (Rahul Kohli) deveriam ser essenciais para o suspense da série, mas acabam reduzidos a resoluções que parecem “jogadas”.
O mesmo ocorre com o grupo “Outros” – personagens com superpoderes que, assim como Carrie, representam um perigo para o mundo – e com as caçadoras desse grupo. Elas são imprescindíveis para o desfecho da temporada, mas não tiveram o devido aprofundamento ou espaço durante a narrativa.
Enquanto isso, o viés assustador e sangrento do enredo é deixado de lado. E aqui é necessário enfatizar a péssima escolha da trilha sonora: músicas animadas e pop atrapalham o clima até nos momentos de maior tensão do terror.
A reinterpretação da relação entre mãe e filha
Essencial para definir a personalidade e as ações trágicas de Carrie, a relação com a mãe passa abaixo do radar nesta versão. Como o fanatismo religioso foi praticamente abandonado, dando espaço para uma Margaret influenciadora digital e defensora dos direitos dos pais na educação dos filhos, a personagem perde a agressividade vista em obras anteriores e o impacto direto nas atitudes da filha.
Margaret parece totalmente descaracterizada. Ainda que a excelente Samantha Sloyan se esforce e entregue uma atuação convincente, em nada se parece com uma figura ameaçadora: na verdade, aproxima-se de alguém que se deslumbrou com as possibilidades do mundo e da fama.
Por outro lado, temos uma excelente intérprete para a protagonista. Summer H. Howell entrega uma performance mais positiva e inocente da personagem. Na maior parte dos episódios, Carrie não quer fazer o mal ou machucar ninguém; ela simplesmente está aprendendo a viver neste novo mundo e a compreender seus poderes telecinéticos. Inclusive, há outra personagem que surge na trama e é utilizada pelos roteiristas como a “versão malvada” de Carrie.
Outra personagem que merece destaque é Chris Hargenstein (Alison Thornton), a principal algoz de Carrie. De riquinha mimada a adolescente inconsequente, suas ações são imprevisíveis e dão andamento ao principal conflito. No entanto, apesar do papel central na emblemática cena do baile, sua participação sofre — junto com toda a sequência derradeira — da péssima decisão de intercalar o clímax com cenas de interrogatório.
Relembre as adaptações de Carrie, a Estranha no cinema e TV
- Carrie, a Estranha (1976): O clássico do terror dirigido por Brian De Palma, estrelado por Sissy Spacek e Piper Laurie (ambas indicadas ao Oscar por suas atuações).
- A Maldição de Carrie (1999): Sequência direta dirigida por Katt Shea, focada em outra jovem com habilidades telecinéticas.
- Carrie, a Estranha (2013): Remake contemporâneo estrelado por Chloë Grace Moretz e Julianne Moore.
- Carrie, a Estranha (série – 2026): Reimaginação em formato de série com oito episódios no Prime Video, comandada por Mike Flanagan e estrelada por Summer H. Howell.
Afinal, vale a pena assistir à série Carrie, a Estranha?
Comecei a série empolgado com a proposta de atualização do clássico de Stephen King e fui, a cada novo episódio, perdendo o gosto pela trama. Personagens e arcos fracos, pouco desenvolvimento de situações cruciais e uma falha completa no clímax do terror fazem da série uma adaptação com mais erros do que acertos. Apesar de ter uma excelente Carrie, todo o restante deixa a desejar.

Sobre o Autor

- Jornalista. Repórter no Folha do Mate, podcaster no Na Tabela e HTE Sports. Pitacos sobre cinema e cultura pop no Entre Sinopses.
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