Crítica | Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

Crítica | Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

Você conhece o conceito de “filme de maluco”? Pois bem, gosto de chamar essa nova onda do terror, que aposta principalmente no aspecto psicológico e nem tanto no susto repentino (o famoso jumpscare), de “filme de maluco”. A explicação é simples: a lógica por trás da maioria destes projetos é a esquisitice ou a estranheza. São ideias fora da caixa que, às vezes acertam, às vezes erram. Backrooms: Um Não-Lugar acertou em cheio.

Dirigido pelo jovem cineasta Kane Parsons (com assustadores 21 anos apenas), a trama aborda uma espécie de ambiente paralelo que é encontrado por um vendedor de móveis na parede da loja da qual é proprietário. Este local parece ser infinito e replica peças da realidade. No entanto, ele também esconde mistérios difíceis de interpretar. O Entre Sinopses assistiu ao longa e te conta, em detalhes, se vale todo esse hype.

Realidade ou alucinações?

Clark (Chiwetel Ejiofor) é um vendedor de móveis frustrado que acabou de se separar da sua esposa após mais um caso envolvendo o vício em álcool — o que também ocasionou sua expulsão de casa. Com dificuldades para aceitar a separação e também para gerar resultados financeiros positivos na loja, ele passa a se consultar regularmente com uma psicóloga, a Doutora Mary (Renate Reinsve, indicada ao Oscar por Sentimental Value).

O protagonista mora no andar de baixo da loja e busca alternativas para melhorar a situação da empresa. Enquanto isso, demonstra não assumir a culpa pela separação e pelos problemas que sofre no dia a dia. Eis que, durante uma noite, após diversas falhas na energia elétrica (um fato recorrente), ele encontra uma passagem secreta para um ambiente que se assemelha muito à sua loja, mas que parece ser infinito.

O mistério inquietante de “Um Não-Lugar”

O conceito apresentado deste amplo pavilhão, com salas infinitas, é extremamente criativo. Além de todas as surpresas que a trama apresenta durante a exibição, chama a atenção o fator replicante do lugar. Ele não é apenas um ambiente qualquer; pelo contrário, parece ter vida própria e reproduz pessoas e objetos que, de alguma maneira, já estiveram por lá.

Estas dúvidas são as principais responsáveis pela constante tensão no longa. Backrooms apresenta teses inconfiáveis, pois em nenhum momento deixa claras as intenções ou o que realmente é este ambiente. Tudo o que sabemos parte de teorias dos próprios protagonistas ou da nossa própria dedução diante dos acontecimentos. Sendo assim, além de deixar o espectador sempre em dúvida, a tensão causada por essa imprevisibilidade faz muito bem ao filme.

Aliás, a ambientação nos anos 90, com as mudanças nas propagandas e a inserção cada vez maior da televisão no imaginário popular, também influencia na construção desse cenário de instabilidade. Inclusive, os personagens principais são problemáticos — não apenas Clark, mas também Mary, que carrega um passado trágico que deixa sua mente confusa. Isso faz com que a gente questione se tudo o que estamos vendo sob a ótica deles é real.

As analogias presentes — sejam relacionadas aos problemas psicológicos dos protagonistas e às falhas da nossa memória, até inserções que lembram as Inteligências Artificiais dos dias atuais (afinal, quem replica e altera imagens o tempo todo hoje em dia?) — mantêm o aspecto de curiosidade em voga durante toda a narrativa.

Tanto Renate Reinsve quanto Chiwetel Ejiofor estão muito bem em Backrooms. Os dois apresentam essa confusão mental e pitadas de loucura de formas completamente diferentes. Renate é sóbria e esconde os traumas que a afetam, enquanto Ejiofor é mais físico e expressa toda a insanidade que seu personagem necessita.

Maquiagem, efeitos e o polêmico final de Backrooms

O trabalho de maquiagem e os efeitos visuais chamam a atenção. Ainda que tenha um orçamento reduzido, os efeitos são convincentes, principalmente pela escolha de focar em soluções práticas. No entanto, a presença de um certo monstro no terceiro ato de Backrooms tira um pouco do terror psicológico pré-estabelecido, apostando em algo mais tradicional da linguagem do gênero.

Ainda assim, o desfecho deu o que falar pela inserção de novos personagens e pela forma como deixa em aberto o destino dos protagonistas. Vale um artigo de “Final Explicado” no Entre Sinopses, não acham?

Vale a pena assistir Backrooms: Um Não-Lugar?

Muito. É um dos filmes de terror mais criativos e com a premissa mais diferente dos últimos anos. É meio “de maluco”? Também. Mas, ainda assim, vale a pena assistir e debater sobre todas as suas teorias.

Sobre o Autor

Leonardo Pereira
Leonardo Pereira
Jornalista. Repórter no Folha do Mate, podcaster no Na Tabela e HTE Sports. Pitacos sobre cinema e cultura pop no Entre Sinopses.