Crítica | Dia D (2026)

Crítica | Dia D (2026)

Um dos maiores diretores da história, Steven Spielberg voltou às origens neste ano. Pioneiro no termo que conhecemos atualmente como blockbuster — aqueles filmes de lotar o cinema e que alcançam todos os públicos —, ele também é marcado pelas produções envolvendo um dos assuntos mais debatidos da história: a existência de alienígenas. Pois bem, em Dia D (Disclosure Day, no original), ele retoma este tema.

A carreira de Spielberg se mistura diretamente com a temática. Ele foi o responsável por E.T. – O Extraterrestre (1982), que debatia a vida fora da Terra de forma pacífica através de uma emocionante aventura infantojuvenil, e por Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), cujas imagens assombram o imaginário do público até hoje. Contudo, fazia um longo hiato que ele não retratava o assunto no comando da direção — desde Guerra dos Mundos (2005) —, ainda que tenha atuado como produtor em títulos como Super 8 (2011). E não foi por falta de trabalho: foram mais de dez produções sob sua tutela nesse período.

Aliás, novamente em parceria com o roteirista David Koepp (Jurassic Park). O Entre Sinopses já assistiu e te conta em detalhes tudo sobre a nova produção do Spielberg sobre alienígenas!

Qual a trama de Dia D?

A trama abre com o especialista em segurança cibernética Daniel Kellner (Josh O’Connor) roubando um artefato misterioso de uma agência governamental conhecida como Wardex. Por conta disso, passa a ser caçado, junto de sua namorada Jane (Eve Hewson), pela equipe da Wardex liderada por Noah Scanlon (Colin Firth). Enquanto isso, em Kansas City, a apresentadora da previsão do tempo de um canal de TV local, Margaret (Emily Blunt), tem um encontro com um pássaro cardeal vermelho em casa e passa a agir de maneiras estranhas.

Durante um programa ao vivo, ela age de forma atípica e pronuncia palavras em uma língua desconhecida — ela já havia tido outros eventos estranhos, como saber falar russo e coreano e descobrir a vida das pessoas apenas de olhar para elas. Com o tempo, o diretor vai nos dando pistas e mostrando que estamos prestes a descobrir a existência de alienígenas, e estes dois protagonistas têm uma relação direta com eles.

Importante falar: enquanto a trama acontece, uma iminente Terceira Guerra Mundial toma conta dos noticiários.

A temática alien para falar do ser humano

O grande ponto forte de Dia D não está na presença constante dos aliens. Pelo contrário: está nos impactos que a “mísera” descoberta de que eles existem causa no ser humano. Spielberg abandona o contato direto com os extraterrestres e nos faz refletir sobre como reagiríamos com esta informação.

O primeiro tópico, e que percorre toda a trama, é a religião. Jane, uma ex-noviça que abandonou o futuro como freira para viver uma vida normal, não parece questionar a existência de Deus. Ao descobrir sobre os alienígenas, passa a imaginar a reação da população com esta revelação. Os humanos os verão como divindades? A fé se perderá? Qual será a reação das grandes potências com estes seres?

Inclusive, Jane, apesar de coadjuvante, passa a ser peça fundamental para a trama. No entanto, o enredo acompanha dois núcleos que se unirão no final: Margaret descobrindo o que está acontecendo com ela e buscando Daniel, enquanto Daniel e Jane fogem das equipes da Wardex.

Ainda que cenas de perseguição sejam comuns na rodagem, Spielberg pouco dá espaço para maiores desenvolvimentos de ação pura. O foco de Dia D está em alcançar o ponto final, que é a divulgação das imagens das quais Daniel está em posse após roubar do governo americano. E, assim, revelar ao mundo a existência dos seres extraterrestres.

Estamos prontos?

Este é o grande dilema de Dia D. Margaret e Daniel, aos poucos, descobrem os “poderes” que têm e toda a importância deles para o mundo. Eles não são apenas privilegiados, mas sim têm um objetivo em comum: apresentar ao mundo o que está sendo escondido há sete décadas — com direito a gravações pesadas de tortura e experimentos. Ou seja, eles são ferramentas para um “bem maior”?

Spielberg flerta durante todo o longa com este debate sobre se estamos prontos para descobrir algo que foge da nossa natureza. E, acredite, dentro de toda sua genialidade, ele deixa isso em aberto. A humanidade tem direito à informação, mas e aí, como ela será usada?

Dia D não quer falar das consequências. Quer falar do direito de sabermos sobre.

Atuações

O elenco estrelado — que ainda conta com o ótimo Colman Domingo no papel de um dos oficiais estratégicos do governo — faz um excelente trabalho. Destaque para Emily Blunt e Colin Firth, antagonistas no enredo e que carregam as cenas mais pesadas no quesito drama. O diretor é conhecido por “tirar tudo” do elenco e, novamente, ele é eficiente nisso.

Nostalgia em Dia D

Spielberg acerta em cheio ao revisitar conceitos de sua filmografia e, também, eventos misteriosos da vida real. O Caso Roswell é um dos exemplos, assim como o design dos aliens lembra bastante outras produções do diretor. É um esmero, acredito que intencional, para mostrar ao público o cinema que consagrou Spielberg durante décadas.

Contudo, nem sempre funciona. A escolha da trilha sonora e pitadas de humor em momentos dramáticos ou após cenas pesadas descredibilizam às vezes a temática. O assunto é sério e urgente, mas a trilha sonora faz o espectador pensar que assiste a uma aventura de Sessão da Tarde. É o ponto baixo do filme.

Vale a pena assistir Dia D?

Com certeza. Spielberg revisita o tema que o tornou um dos diretores de maior renome de Hollywood com uma pegada atual, que debate o acesso à informação, as tensões políticas mundiais e o papel da religião no mundo. Com final em aberto, a trama não esquece que os protagonistas são os humanos e que não estamos sozinhos neste quase infinito universo.

Não vou falar muito, mas o final é espetacular como só Spielberg consegue ser.

Cena do filme Dia D, dirigido por Steven Spielberg
dia d (2026)
Novo filme de Steven Spielberg utiliza alienígenas para falar sobre o direito dos humanos à informação
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Sobre o Autor

Leonardo Pereira
Leonardo Pereira
Jornalista. Repórter no Folha do Mate, podcaster no Na Tabela e HTE Sports. Pitacos sobre cinema e cultura pop no Entre Sinopses.