Crítica | Stranger Things: Historias de 85 (1ª temporada)

Crítica | Stranger Things: Historias de 85 (1ª temporada)

Menos de quatro meses após o polêmico e divisivo final da série live-action, a Netflix já nos apresenta uma nova entrada do universo de Stranger Things com a animação Histórias de 85, ambientada entre os eventos finais da segunda temporada e o começo da terceira.

Quando novas criaturas sobrenaturais surgem capturando residentes de Hawkins, Eleven e seus amigos precisam agir para conter a ameaça antes que ela se torne grande demais.

Mas será que vale a pena retornar a esse mundo agora? Vamos falar sobre isso a seguir. Confira a crítica da primeira temporada de Stranger Things: Histórias de 85.

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É cânone ou não?

Mantendo a estética da abertura e se passando em um período entre temporadas, a animação foi vendida inicialmente como parte do cânone. No entanto, há tantos elementos novos e situações apresentadas aqui que não teriam como ser ignoradas pelo que veio depois cronologicamente.

Então, por mais que nenhuma resposta tenha sido dada de forma oficial, é mais fácil afirmar que trata-se de uma trama paralela fora do cânone. Porém também a série não se esforça para se afastar totalmente, e isso já é, para mim, um dos problemas iniciais da produção.

Busca resgatar o senso de aventura

Stranger Things chamou atenção em suas primeiras temporadas por dois elementos: a nostalgia dos anos 80 e a sensação de acompanhar uma aventura gostosinha, torcendo por aqueles personagens. Não à toa, a série foi esse sucesso estrondoso. No entanto, conforme fomos avançando nas temporadas, drama e ação se sobrepuseram de alguma forma.

A tentativa do showrunner Eric Robles, em parceria com os criadores Irmãos Duffer, é justamente trazer de volta esse senso de aventura que o início de Stranger Things conseguia transmitir tão bem. É muito legal ver a turma reunida novamente, investigando, se colocando em perigo e tentando resolver tudo sem chamar atenção dos adultos.

As interações são excelentes. Gosto de Dustin servindo como um “líder”, indo atrás das aventuras. A dupla Max e Lucas funciona muito bem como um jovem casal em construção. Já Will, Eleven e Mike não funcionam bem ao meu ver. Sobre a novata, vamos falar no tópico seguinte.

Confira a seguir: A maldição das séries de grande sucesso

Novos elementos para quê?

O grande erro de Histórias de 85 é não saber ser uma história contida. Se passando em um período entre temporadas, era muito simples apresentar uma aventura mais centrada, de menor escopo e focando em outros problemas da nossa turminha tão querida.

Mas, preferiram não apenas colocar o Mundo Invertido novamente na jogada (tirando muito do peso das descobertas da 3ª temporada), como também não exploraram personagens já existentes no universo e optaram por apresentar uma nova aliada e novos vilões.

Nikki é mais uma personagem ao melhor estilo Eddie Munson. Ela não se encaixa nos padrões da sociedade daquela época, usando um cabelo de moicano, piercings e fazendo amizade com o grupo mais jovem. Por isso é tão fácil se identificar com ela, ela é muito similar a alguém que já aprendemos a gostar no futuro. Mas inserir uma personagem dessa forma é praticamente admitir que a série não é cânone mesmo, já que ela nem sequer citada no futuro do universo.

Eu, de verdade, queria que a história aqui não focasse em monstros e Mundo Invertido. Isso prejudicou bastante minha imersão e fez com que a minha experiência com a obra não fosse das melhores.

Nancy e Steve fazem participações especiais em um episódio cada. Hopper é um mero coadjuvante. Joyce e Jonathan mal aparecem. A série tinha a chance de explorar situações não vistas de personagens já conhecidos, mas opta por outros caminhos.

A parte técnica é boa

Apesar de não gostar muito do estilo de animação escolhido, a parte técnica é boa. As movimentações são convincentes a animação funciona bem em cena. No entanto, acho que faltou orçamento para deixar Hawkins mais viva. Muitas vezes parece que assistimos a uma história em uma cidade fantasma, com os cenários vazios em tela. A paleta de cores segue o que vemos na produção live-action, fazendo ser uma experiência bem familiar.

O trabalho de voz, que não usa os atores originais, tenta replicar e em parte dos casos funciona bem como em Mike, Lucas, Max e principalmente Dustin. Will e Eleven são os mais diferentes, mas não ficou ruim.

Os monstros também estão bem feitos, evoluindo a cada aparição e representando um perigo real, mas sem consequências graves.

O ritmo dos episódios, que tem em média 30 minutos, varia bastante. Há alguns que são bem ágeis e funcionam bem, enquanto há outros que mesmo com uma duração mais curta parecem ser mais longos pela falta de situações interessantes acontecendo. A série segue uma estrutura episódica, mas não procedural.

Algo que senti falta foi uma melhor exploração da trilha sonora. As trilhas originais são pouco impactantes, e as músicas da época poderiam ter sido mais e melhor utilizadas. Quando elas aparecem, funciona bem,.

Um desperdício e que veio cedo demais

Stranger Things: Histórias de 85 é uma oportunidade desperdiçada de ser uma aventura mais leve, contida e intimista. Perde-se a chance de explorar mais dos personagens que conhecemos, dando outras nuances para eles. Perde também a chance de antecipar algumas coisas que vimos somente mais para frente na série live-action.

Não há uma preocupação em se ater ao cânone, ao mesmo tempo em que se mantém elementos para remeter à série original. Essa indecisão sobre o que quer ser acaba “matando” a série para mim.

E, claro, ter sido lançada só quatro meses depois do fim de Stranger Things é o maior erro de todos. Não houve tempo para a franquia respirar, mesmo com o final não agradando a todos. Foi cedo demais, isso é inegável. Ainda vão esticar a história para uma segunda temporada programada ainda para 2026. Vamos ver onde isso vai parar.

Stranger Things: Histórias de 85
stranger things: histórias de 85
Stranger Things: Histórias de 85 desperdiça a chance de contar uma aventura menor e mais intimista ao insistir em expandir um universo que ainda precisava de tempo para respirar
1.5

Sobre o Autor

Heider Mota
Heider Mota
Baiano, 29 anos, jornalista. Gosto de dar meus pitacos sobre filmes e séries por aqui.