Crítica | Depois do Fogo

Crítica | Depois do Fogo

Após ter seu rancho destruído por um incêndio florestal, o cowboy Dusty (Josh O’Connor) passa a viver em um acampamento de trailers ao lado de outras famílias que também perderam tudo por causa do fogo. Então, ele precisará se reconectar com a filha, a ex-esposa e principalmente, consigo mesmo para se reconstruir.

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A melancolia da perda material e pessoal

Depois do Fogo (Rebuilding), filme escrito e dirigido por Max Walker-Silverman, trata de uma temática infelizmente muito recorrente em diversas partes do mundo, especialmente na zona rural do Oeste dos Estados Unidos: os incêndios florestais. O longa-metragem já começa, nos créditos iniciais, mostrando a devastação provocada pelo fogo que consome tudo que toca.

É assim, em meio à melancolia da perda, que somos apresentados ao cowboy Dusty, interpretado por Josh O’Connor, que cada vez mais vez se destacando em filmes como Rivais (2024) e Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025). Aqui ele traz à tona um protagonista silencioso, triste e principalmente perdido.

Após o fim do seu casamento, Dusty está distante da filha e se dedicava totalmente ao trabalho no rancho. Então, sofrendo uma segunda perda, ele fica sem rumo. Não tem mais o trabalho que ocupava o seu tempo, não tem mais a relação amorosa que construiu e precisa se reconectar com Callie-Rose (Lily LaTorre), sua filha.

O filme tem muito sucesso em conseguir retratar de forma bem fiel as dores e tristezas de um homem que passa por sucessivas perdas. Dusty é um bom homem, mas que está perdido em meio a tantas dificuldades. Porém, ainda assim, ele precisa aprender nesse novo momento a se reconectar, não apenas com as outras pessoas, mas principalmente consigo mesmo.

Duas cenas deixam bem claras o desenvolvimento do personagem. Logo quando ele leva a filha pela primeira vez ao acampamento onde irá morar, Dusty sequer considera interagir com os vizinhos. Porém, conforme o tempo vai passando, ele se integra à comunidade e, mais para frente no filme, não só passa a interagir como prepara uma refeição. É, aos poucos, a reconstrução do cowboy enquanto pessoa sendo mostrada em tela.

Apesar de ser um filme que retrata uma história triste e melancólica, Depois do Fogo não se prende a isso. A tragédia do incêndio, as perdas pessoais e materiais, e as relações familiares e de amizade fazem parte dessa trama que tem uma linda sensibilidade para tocar nesses assuntos. Em poucas cenas e diálogos, a personagem Bess (Amy Madigan, de A Hora do Mal) consegue explicar bem todas as temáticas.

Aspectos técnicos e atuações

O grande destaque é Josh O’Connor. Seu personagem carrega uma melancolia, uma tristeza, mas sempre mantém um tom sereno. Exceto quando ele não aguenta mais e deixa todos os sentimentos extravasarem, em uma cena que revela todo potencial dramático do ator.

De resto, o elenco está todo bem, mas sem grandes destaques. Lilly LaTorre é uma doce Callie Rose, que mesmo pequena já entende sobre o que aconteceu e as perdas que seu pai passou. Kali Reis traz uma Mila que é o coração do filme para aproximar Dusty dos vizinhos. Já a relação com Ruby (Meghann Fahy), a ex-esposa de Dusty, é abordada de forma simples, mas efetiva. Amy Madigan, ex-sogra de Dusty, aparece pouco, mas deixa sua marca em tela.

Sobre os aspectos técnicos, destaco a direção de fotografia. O filme é belíssimo e se aproveita muito de iluminação natural, assim como Sonhos de Trem, para fazer suas cenas. O roteiro não tem grandes pontos altos, mas mantém um bom nível do início ao fim. A direção leva com sensibilidade o filme e não deixa ele perder seu tom, que começa com a melancolia e termina com esperança.

Vale a pena assistir?

Depois do Fogo não é um filme com cenas de ação ou grandes viradas narrativas. É sobre se reconstruir, superar perdas e dificuldades, e principalmente recomeçar em meio a esse caos, aqui representado pelo incêndio que devastou ranchos, fazendas, casas e vidas.

Um lindo e silencioso drama sobre a vida, e a necessidade de continuar.

Depois do Fogo
DEPOIS DO FOGO (Rebuilding)
Um lindo e silencioso drama sobre a vida, e a necessidade de continuar.
3.5

Sobre o Autor

Heider Mota
Heider Mota
Baiano, 29 anos, jornalista. Gosto de dar meus pitacos sobre filmes e séries por aqui.