Crítica | A Odisseia (2026)

Crítica | A Odisseia (2026)

Há obras que representam muito bem o que é o fazer cinematográfico e certamente A Odisseia, filme dirigido por Christopher Nolan e com Matt Damon no papel principal, será lembrado daqui para frente como um dos belos exemplos disso.

Uma história bastante conhecida e já adaptada em diversas situações e formatos ganha aqui uma verdadeira ode ao cinema, no capricho de um dos cineastas mais aclamados (e debatidos) de sua era. Mas por que vale a pena assistir A Odisseia na sala de cinema? Vamos falar a respeito. Confira a seguir a crítica do filme, com leves spoilers (nada que atrapalhe a experiência, pode confiar).

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Qual é o ponto de partida de A Odisseia?

Temos aqui uma história não-linear, que passeia entre presente e diferentes momentos do passado para nos apresentar a jornada de Odisseu em busca de voltar para Ítaca, sua casa e local onde é Rei, após o ataque dos gregos à Tróia. A partir daí temos um drama épico que mistura cenas de ação empolgantes, aventura fantasiosa e a exploração da percepção da culpa na figura de seu protagonista, brilhantemente vivido por Matt Damon.

Um espetáculo técnico

Resumir o “fazer cinema” a somente uma obra seria algo extremamente pretensioso, mas é fato que A Odisseia consegue ser um ótimo exemplo de mostrar como um cineasta pode amar a sétima arte a ponto de se dedicar como Nolan fez aqui. Tanto pela filmagem em uma tecnologia Imax diferenciada até cada detalhe que pode até passar batido, mas faz a diferença.

O filme tem um trabalho de figurino e maquiagem impecável que ajuda a nortear o espectador nas suas idas e vindas do tempo. A montagem segue a batida da obra original, não tendo uma lineariedade e mesclando flashbacks com cenas localizadas em diferentes momentos sem que nunca pareça confuso ao espectador.

O trabalho de som é magnífico, desde quando falamos da trilha sonora original à parte de mixagem e edição. Muitas vezes a história é contada a partir do som e da ambientação, e não por meio de diálogos. E a fotografia é brilhante, sendo muito beneficiada pelo “vício” de Nolan em insistir por efeitos práticos sem se render a tela verde que tanto assombra filmes e séries da atualidade.

Representar A Odisseia em um filme de quase 3 horas requer um trabalho de escrita apurado e aqui temos um roteiro que sabe desenvolver tramas paralelas em momentos distintos, mas amarradas a um único alicerce, que é a invasão a Troia. É daí que vem os dramas tanto anteriores à situação, quanto a jornada posterior permeada na jornada de culpa carregada por Odisseu.

Na minha visão, A Odisseia traz um dos melhores trabalhos de Christopher Nolan em relação a recursos técnicos em toda a sua filmografia.

Falando sobre as atuações

Matt Damon não é um Odisseu que carrega consigo a jornada do herói tradicional. Seria fácil representá-lo como um herói clássico, o homem que decidiu a guerra e voltaria para casa celebrado. O caminho é outro. Ele carrega a dor da culpa pelo que fez, sabendo que acabou com uma civilização e que não sabe o que encontrar quando, e se, voltar ao lar. Muitas vezes o ator opta por uma certa apatia e morosidade em vez da busca pelo destaque, algo ainda mais acentuado no ato final.

Se Nolan é tão criticado pelo seu trabalho com personagens femininas, a Penélope de Anne Hathaway vai na contramão de todas essas críticas. A personagem é forte, decidida e mesmo carregando um drama e um fardo gigantesco, se mantém forte para não ceder a decisões mais simples.

Tom Holland tem a atuação mais questionada, pois seu personagem não parece ter a mesma força do restante do elenco. Vejo que ele está um pouco abaixo mesmo, mas nada que tire da imersão do filme. Já Robert Pattinson dá show com o odioso Antinous, vilão dos mais caricatos, mas muito bem representado. Ele é odioso, covarde, mas mantém a pompa de quem acha que está sempre no comando.

Outros destaques são John Leguizamo com seu sábio Eumeu, Samantha Morton com a visceral Circe que entrega uma das cenas mais agoniantes e aterrorizantes do longa e Himesh Patel, que com seu Euriloco traz um contraponto necessário para a jornada de Odisseu. Ainda temos Elliot Page com um Sinon que tem uma função clara no longa, servindo de bússola moral para o antes e o depois do Cavalo de Troia, e Charlize Theron, com uma Calipso carismática e repleta de segredos.

Com menos destaque coloco Mia Goth no papel da serva Melanto, Jon Bernthal que não foge muito de suas características de atuação vivendo Menelau e Zendaya, que aparece pouco com uma Atena que apesar de tudo serve ao seu propósito na jornada de Odisseu.

O grande problema do filme

Encontrar defeitos em A Odisseia é uma verdadeira tarefa, pois o filme é tão bem feito que fica difícil apontar problemas. Mas, sendo sincero, há alguns pequenos detalhes que tiram do longa a nota máxima.

O primeiro deles é que por contar com uma quantidade tão grande de histórias e personagens, não há equilíbrio no tempo de tela e com isso algumas partes da trama ou acontecem de forma muito rápida ou não ganham profundidade. O caso mais evidente está na Helena de Troia vivida por Lupita Nyong’o. A personagem é fundamental para todo o cerco de Troia, mas seu pouco tempo em tela tira o peso até mesmo de suas breves aparições.

Há também momentos em que alguns arcos desaparecem completamente do filme. E depois retomam, e somem, e voltam. E ficamos assim. Destaco aqui a jornada de Telemaco, personagem de Tom Holland. Quando ele sai em uma expedição para buscar notícias do pai, o personagem some por um tempo e depois reaparece. As suas movimentações geográficas também são pouco naturais, bem diferente da jornada gigantesca de Odisseu para retornar à casa.

Por que assistir no cinema e não no streaming?

Se eu posso te deixar uma recomendação com esse texto é: assista A Odisseia nos cinemas. Já fui muito contra o discurso de obrigatoriedade de ir a uma sala de cinema para ver filmes, ainda mais com ingressos tão caros como estão atualmente. Mas, de verdade, a experiência vale muito.

Seja por ser um filme com duração mais longa e assistir fora do cinema nos coloca diante de inúmeras distrações que seriam um desperdício dividir a atenção e perder algo da obra. Mas também por ser uma realização cinematográfica feita com tanto zelo, carinho. Dá para ver o cuidado de Nolan e todos os envolvidos em respeitar o cinema enquanto arte e não há maneira maior de conseguir enxergar isso do que assistindo na maior tela e com o melhor som possível.

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Vale a pena assistir?

A Odisseia é um filme que mostra o seu idealizador cada vez mais consolidado como um dos grandes cineastas de sua era. Nolan aqui está no seu melhor em todos os aspectos, com o longa sendo resultado de tudo que ele construiu no decorrer da carreira. Não é somente mais uma adaptação do poema de Homero, mas uma realização que certamente ficará marcada como um épico e que será lembrada por muito tempo.

Não é o meu filme preferido de Nolan e não o considero perfeito, por pequenos detalhes, mas sem sombra de dúvidas vale a pena viver essa experiência. E, novamente repito, assista no cinema!

A Odisseia
A ODISSEIA
Uma jornada épica que conduz o espectador por drama, ação, terror, aventura, romance em uma história completa e feita com zelo pelo cinema.
4

Muito bom

Sobre o Autor

Heider Mota
Heider Mota
Baiano, 29 anos, jornalista. Gosto de dar meus pitacos sobre filmes e séries por aqui.