Crítica | Ruptura (2ª temporada)

Um dos grandes desafios de uma série que surpreende e é aclamada pelo público logo em seu primeiro é a constante dúvida: será que ela consegue manter o nível? Felizmente a resposta é positiva e Ruptura retorna para a segunda temporada ampliando sua narrativa, apresentando novos mistérios e finalmente entregando respostas.
Leia aqui a crítica da 1ª temporada de Ruptura
Explorando o mundo externo
Se no primeiro ano conhecemos a realidade dos internos da Lumon e como acontecia a separação da vida do trabalho e a vida fora do trabalho, a segunda temporada de Ruptura opta por trabalhar mais duas questões: o mundo externo e como os innies e os outties ao mesmo tempo em que são a mesma pessoa, cada vez mais seguem caminhos diferentes.
Basta notar a quantidade de cenas dentro da Lumon e como elas são drasticamente reduzidas aqui. Estamos muito mais do lado de fora do que dentro da empresa, acompanhando os outties e seus dilemas. Mark e a busca pela reintegração, Helena e suas responsabilidades como Eagan, Irving e as consequências das atitudes do seu innie, e o relacionamento de Dylan com sua esposa, que se entrelaça diretamente com o que seu innie faz dentro da Lumon.
Isso causa uma sensação de estranheza, principalmente porque a série nos acostumou no primeiro ano a vivenciar o ambiente da Lumon, desde os corredores brancos e imensamente longos, além da sala do Refinamento de Macrodados, que sofre diversas alterações até o episódio final em que se transforma totalmente.
Novas ideias, novas histórias
Uma das surpresas do novo ano é quando logo de cara somos apresentados às consequências do explosivo final da primeira temporada. Harmony Cobel (Patricia Arquette) é deixada de lado e Seth Milchick (Tramell Tillman) assume a sua função, inclusive as situações pelas quais ele passa nos levam a pensamentos extremos de, por exemplo, “como ele suporta tudo isso sem sequer ter passado pela ruptura?”.
Temos também uma nova equipe do refinamento de macrodados, que parece somente no primeiro episódio, até que os antigos colegas de Mark S. sejam novamente recrutados. E quem não se assustou ao ver a jovem Senhorita Huang (Sarah Bock) em tela?
De fato temos muitas novas tramas apresentadas na temporada, mas nenhuma é tão chocante quanto saber o que se passa com Gemma / Srª Casey (Dichen Lachman). O episódio 7 da temporada, chamado Chikhai Bardo é realmente impactante.
Ainda que tenha gostado bastante da temporada, acredito que ela derrapa em algumas pequenas situações, principalmente por apresentar tantas novas situações e acabar protelando para resolver tramas anteriores, que chegam ao ápice com os três episódios finais. As revelações sobre Cobel e o que é Cold Harbor são explosivas e levam a série ao topo.
O que faz o Refinamento de Macrodados?
Nos é revelado de forma definitiva no episódio final que o trabalho feito por Mark S. é simplesmente reorganizar a mente de Gemma em relação aos quatro temperamentos de Kier — aflição, diversão, temor e malícia. E o grande trabalho é que a cada projeto realizado por Mark, uma nova innie de Gemma é criada para ser testada em relação a grandes situações ligadas a esses temperamentos. Ou seja, por ela ter passado por 25 salas diferentes, ela tem 25 innies. Surreal!
Cold Harbor, por exemplo, é a maior tristeza que tanto Mark quanto Gemma passaram, a dor de não conseguir ter um filho, então a nova innie de Gemma é colocada para desmontar um berço de bebê e questionada sobre o que sente. Ao responder que não sente nada, Jame Eagan (Michael Siberry) comemora o sucesso.
Podemos então afirmar que o grande objetivo da ruptura é retirar os sentimentos mais dolorosos das pessoas para fazer com que elas consigam passar pelas situações traumáticas de suas vidas sem sentir nada. Isso já havia ficado claro na primeira temporada com a personagem que passou pela ruptura apenas para conseguir parir sem passar pelas dores do parto.
Respostas, mas ainda muitas perguntas
O que fazem as outras unidades da Lumon? Para onde Irving foi mandado? Qual é a verdadeira função de Burt na história? Como ficará o relacionamento de Dylan e Gretchen? Agora com Gemma salva, quais os impactos disso para a continuidade da existência da Lumon? Cobel realmente mudou de lado? Ricken, que foi deixado de lado nessa temporada, tem mais a mostrar do que o que demonstra? Como ficará a essa dualidade de Mark e seu innie? Não são poucas as questões que a série ainda deixa em aberto para o terceiro ano.
Mas nada foi mais doloroso do que ver a cena final da temporada, com Mark S. escolhendo ficar dentro da Lumon enquanto Gemma, já do lado de fora, grita por ele, quando vê a imagem do esposo, sem saber que ali é uma versão rupturada dele, a deixando para ficar com outra mulher. Mark S. e Helly R. correndo nos corredores da Lumon com aquela cinematografia avermelhada foi uma das cenas mais bonitas da TV nos últimos anos.
Ainda vale a pena assistir Ruptura?
Digo e repito: se você não está assistindo Ruptura, está perdendo um acontecimento histórico na TV. É uma das melhores, se não a melhor, série da atualidade. Ainda que esteja “escondida” no catálogo do pouco badalado, mas excelente streaming Apple TV+, a série merece ainda mais reconhecimento e ser ainda mais falada do que já é.
Um trabalho magnifico, repleto de significados e com uma qualidade muito acima do que vem se tornando normalidade quando falamos em produções para streaming. Ruptura não é uma simples série, mas um acontecimento. E se ela seguir assim enquanto existir, certamente será lembrada para sempre com muito carinho e admiração.
Ruptura (2ª temporada)
Criação: Dan Erickson
Elenco: Adam Scott, Britt Lower, John Turturro, Zach Cherry, Patricia Arquette, Tramell Tillman, Christopher Walken, Dichen Lachman, Jen Tullock e mais.
Episódios: 10
Disponível em: Apple TV+
Nota: ⭐⭐⭐⭐💫 (4,5/5)
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