Crítica | O Bom Professor

Crítica | O Bom Professor

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Filmes que abordam circunstâncias em que a palavra de uma pessoa fica contra a palavra de outra não são novidade, nem mesmo colocando em uma temática menor que é a de um professor sendo acusado de cometer um crime contra um aluno menor de idade. Longas como o dinamarquês A Caça, de 2012, abordaram exatamente essa situação. Então, eis que chega o filme francês O Bom Professor, escrito e dirigido por Teddy Lussi-Modeste e que se baseia em experiências reais vivida pelo mesmo.

Na trama acompanhamos Julien (François Civil), professor de uma turma de adolescentes em uma escola pública na França. Um dia, quando um exemplo que ele dá durante uma aula é mal interpretado, uma de suas alunas, Leslie (Toscane Duquesne) o acusa de assédio. Agora, Julien terá que tentar provar a sua inocência ao mesmo tempo em que vive os horrores de uma acusação tão grave como essa.

Um suspense que te intimida

O Bom Professor, como já falei anteriormente, não inova em sua trama, mas não é por isso que o filme não consegue ser eficiente. Na verdade, desde a primeira cena você já vai ficando intimidado pelo que o longa-metragem está trazendo, e isso se deve bastante à direção e as escolhas das locações. A sala de aula é pequena em espaço, então cada vez mais você se sente preso naquele ambiente e conforme as acusações vão surgindo contra Julien, ele parece ficar aprisionado lá também.

Outro fator que contribui para o suspense do filme que as informações vão sendo mostradas aos poucos. Inicialmente parece ser só mais um dia normal em uma sala de aula, mas conforme os comportamentos vão mudando, os burburinhos e rumores se espalham e aí chega uma situação em que não dá para confiar mais apenas no que se vê em tela.

Nuances e preconceitos

A história do filme se passa em um bairro mais afastado dos grandes centros e se trata de uma escola pública com alunos de famílias mais carentes, isso já dá uma nuance interessante à trama. Ainda há um fator que também torna a história interessante, que é a diversidade étnica. Há alunos brancos, alunos pretos, alunos de origem árabe, muçulmanos, entre outros.

Julien, o professor e protagonista do filme, é gay e se relaciona com uma pessoa de origem turca, e essas questões entram mais para a metade do filme e geram novos conflitos. Inclusive, é um dos fatores que fazem com que o corpo docente, que estava ao lado dele, passasse a desconfiar da sua inocência. Ainda que não seja o principal foco, que é assédio, bullying e o poder que acusações podem ter, o filme também fala bastante sobre preconceitos.

Bullying e assédio: as muitas verdades que podem surgir

A principal temática do filme é como uma interpretação, aliada a comentários maldosos e a prática do bullying, podem acabar levando ao surgimento de falsas verdades e o impacto que isso pode ter não somente na vida de uma ou duas pessoas, mas de toda uma comunidade.

Quanto mais o tempo passa, e mais Julien tenta se defender do que vem sendo acusado, mais parece que a situação piora. Não são poucas as situações no filme em que pessoas o alertam de que tomar determinada atitude poderia piorar o caso. O protagonista, no entanto, mantem-se firme e busca defender a inocência até o final, ainda que isso comprometa suas relações pessoais e coloque em risco a própria vida.

No final, o filme dá uma leve derrapada ao deixar algumas coisas literais demais e optar por um final sem uma conclusão verdadeiramente dita, mas explorando os impactos, principalmente na saúde mental, que toda a história pode causar. Não é um filme perfeito, mas tem uma boa execução e te coloca para refletir bastante. E ser inspirado em fatos deixa a situação um tanto quanto aterrorizante se você parar para pensar mais a fundo.


O Bom Professor (Pas de Vagues)

Direção: Teddy Lussi-Modeste
Ano: 2024 (2025 no Brasil)
Elenco: François Civil, Toscane Duquesne, Shaïn Boumedine, Mallore Wanecque, Bakary Kebe, Emma Boumali, Marianne Ehouman e mais.
Duração: 1h31min.
Nota: ⭐⭐⭐ (3/5)

Final explicado de O Bom Professor

Se você chegou até aqui, saiba que essa parte do texto CONTÉM SPOILERS sobre o filme O Bom Professor, inclusive sobre o final. Então siga por sua conta e risco.

O gatilho para a confusão que se estabelece no filme é que Julien acaba tendo uma aproximação maior com uma parte dos alunos, e duas alunas se sentem excluídas pelo professor. São elas: Océane (Mallory Wanecque) e Sihem (Emma Boumali). Então, elas começam a praticar bullying e inventar mentiras a respeito do professor, o que aos poucos vai criando uma sementinha de dúvida na cabeça dos outros alunos a respeito de Julien.

Então, quando Julien está analisando um poema com a turma e fala sobre asteísmo, que é uma forma de disfarçar um elogio usando uma crítica, ele utiliza a aluna Leslie como exemplo. A turma então faz brincadeiras sobre Julien estar interessado na aluna e isso gera a confusão na cabeça da menina, que passa a acreditar que está sendo assediada, inclusive enxergando situações anteriores como fruto desse assédio.

Leslie tem uma vida complicada em casa, e já sem o pai, que faleceu, fica aos cuidados da mãe, que parece não ter muita voz, e do irmão, que nas cenas em que aparece se mostra ser uma pessoa muito agressiva, ameaçando Julien de morte diversas vezes e incitando o ódio e a violência contra o professor. No final do filme, Leslie reconhece que se enganou a respeito do professor e que os comentários das outras colegas sobre ele acabaram fazendo com que ela enxergasse situações onde não havia nada, mas que agora já seria tarde para voltar atrás e que a situação tinha tomado proporções muito maiores. Ela pede desculpas a Julien, que fica atônito e sem saber o que fazer.

Com a vida pessoal e profissional já bastante prejudicada, Julien segue dando aula normalmente. Na cena final do filme, uma simulação de um ataque à escola acontece e quando um aluno não faz o que é recomendado, Julien tem um surto e precisa ser contido pela diretora Nora (Myriam Djeljeli). O longa termina assim, nos mostrando que apesar da situação ter aparentemente se resolvido e Julien seguiu com seu emprego, seu psicológico jamais voltará a ser o mesmo de antes.

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