Crítica | Ruídos (Noise, 2024)

Crítica | Ruídos (Noise, 2024)

O cinema sul-coreano vem sendo destaque a nível mundial nos últimos anos, com Parasita sendo o ápice dessa “nova era” ao conquistar o Oscar de Melhor Filme em 2020. Até mesmo por isso, outras atrações da Coreia do Sul acabam despertando a atenção do público.

É nesse ritmo que chegamos a Ruídos (Noise), filme que chegou na Coreia do Sul em 2024 e agora, em outubro de 2025, estreia nos cinemas brasileiros com distribuição da A2 Filmes. Mas será que vale a pena assistir? Vamos falar a respeito.

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Qual é a história do filme?

Na trama acompanhamos Ju-young, uma jovem que trabalha em uma fábrica e possui deficiência auditiva. Ela mora com a irmã, mas elas não tem uma relação muito próxima. No entanto, quando Ju-hee desaparece, Ju-young começa uma busca desesperada por ela ao mesmo tempo em que barulhos estranhos começam a ecoar pelo apartamento.

O filme então embarca em uma jornada que mistura investigação, suspense criminal, mistério e terror.

Problemas banais se tornam algo maior

Quem nunca se incomodou com um vizinho? Principalmente quem mora em apartamento sabe que muitas vezes a convivência não é das mais fáceis. Em minha pesquisa para escrever a crítica, descobri que lá na Coreia do Sul esse problema de barulhos em apartamentos é levado ainda mais a sério, com verdadeiras brigas acontecendo seja por batidas, crianças correndo, móveis sendo arrastados, entre outras situações que são até normais do cotidiano.

Ruídos se aproveita disso para colocar uma história de terror e suspense, que tenta assustar com elementos comuns, mas também pende para o lado sobrenatural. Essa mistura, em minha visão, não foi bem-sucedida, e enfraquece o resultado final do longa-metragem.

Som em destaque

Não poderia ser diferente. Sendo o som quase que um personagem vivo do filme, o trabalho aqui precisava ser bem feito para que a história fizesse ao menos um pouco de sentido. E isso acontece. Cada barulho que aparece incomodando os personagens é colocado de forma impecável na obra.

E outro destaque é justamente a ausência de som. Tendo como protagonista uma personagem PCD (pessoa com deficiência), o filme sabe trabalhar o som sob a perspectiva dela. Quando ela está sem aparelho, o som some completamente. Quando ela está meio atordoada, o som fica abafado e quase ausente. Quando ela coloca um novo aparelho, o som fica nítido.

O filme tem um bom trabalho em utilizar os sons justamente tanto como objeto de importância para a construção da narrativa, tanto como uma espécie de metáfora para ruídos sociais e como esses incômodos podem levar à atitudes extremas.

Falta de equilíbrio no tom

O principal defeito de Ruídos, ao meu ver, é não saber o caminho que deseja trilhar. Ele tinha tudo para ser um terror de paranoia misturado com investigação de desaparecimento, algo bem comum em produções audiovisuais. E funcionaria bem, pois traz uma aura de mistério interessantíssima.

No entanto, leves spoilers à frente, o terceiro ato faz uma transição para o sobrenatural que, por mais que já tivesse sido insinuada antes, não precisava acontecer. Há explicações plausíveis para todos os acontecimentos, inclusive em uma cena extremamente expositiva. Para que dar tanta explicação se vai colocar seres paranormais em cena logo depois? Não consegui entender bem essa decisão.

A crítica social está presente, mas é superficial

O filme também tem diversos subtextos, principalmente a respeito das relações de convivência em um condomínio, onde cada um tem suas prioridades e muitas vezes o coletivo é deixado de lado. Porém, faltou aprofundar mais esses temas. Tinha tanto material interessante para vir daí, mas não houve um direcionamento legal para saber explorar.

Por fim, Ruídos tem algumas decisões previsíveis, mas que podem ser o fator que fará você gostar ou desgostar da experiência. No geral, não gostei tanto do filme, mas a reviravolta final me fez ficar de boca aberta por alguns segundos.

Vale a pena assistir?

Como iniciei esse texto falando, o cinema sul-coreano cada vez mais se firma como um dos principais de todo o mundo e entrega obras dignas de aplausos. Com Ruídos, filme que fez muito sucesso localmente, possibilitando a chegada a outros mercados, eu acredito que isso não se repita.

É uma obra com qualidades técnicas, principalmente na edição e mixagem de som, e com muitas possibilidades temáticas, mas que perde pontos ao não saber escolher um tom e acabar “atirando” para todos os lados em uma tentativa de assustar com o sobrenatural, sendo que não ir por esse lado seria até mesmo mais amedrontador.

Não é um filme verdadeiramente ruim, mas diria que se trata de um potencial desperdiçado.

Ruídos
ruídos (noise, 2024)
É uma obra com qualidades técnicas, principalmente na edição e mixagem de som, e com muitas possibilidades temáticas, mas que perde pontos ao não saber escolher um tom e acabar “atirando” para todos os lados em uma tentativa de assustar com o sobrenatural, sendo que não ir por esse lado seria até mesmo mais amedrontador.
1.5

Direção: Kim Soo-jin
Roteiro: Lee Je-hui
Elenco: Lee Sun-bin, Han Soo-a, Kim Min-Seok, Ryu Kyung-soo, Jeon Ik-ryeong, Lee Hyoung-hoon, Baek Joo-Hee
Duração: 1h30min.

Sobre o Autor

Heider Mota
Heider Mota
Baiano, 29 anos, jornalista. Gosto de dar meus pitacos sobre filmes e séries por aqui.