Crítica | Foi Apenas um Acidente

Crítica | Foi Apenas um Acidente

As indicações ainda nem foram anunciadas pela academia, mas a temporada do Oscar 2026 já começa a movimentar os cinéfilos e entusiastas de plantão. A coprodução francesa e iraniana, Foi Apenas um Acidente é mais um destas belas surpresas que apenas a temporada de premiações conseguem nos proporcionar.

Em uma trama que mistura política, comédia e drama, a direção capta o espectador e o leva para um desfecho que, na minha opinião, é um dos melhores dos últimos anos. Fica a pergunta, pode tirar o Oscar de Agente Secreto e do Brasil?

Qual a trama?

Após um pequeno acidente com um cão, uma família acaba necessitando de ajuda para consertar o carro e para em uma oficina de beira de estrada. Um mecânico reconhece o pai da família – pelo som da perna com uma prótese – como um de seus torturadores no período em que esteve aprisionado pelo regime iraniano. Um dia depois, com os traumas revivendo em sua cabeça, ele resolve sequestrar o indivíduo e o matar.

No entanto, ele não tem certeza sobre a identidade de Eghbal, nome do torturador, e passa a buscar outras pessoas que também foram capturadas para tentar ajudar nesta identificação.

Pontos positivos

Dirigido pelo cineasta iraniano Jafar Panahi, a obra venceu a Palma de Ouro no último Festival de Cannes e deve ser indicado na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar, representando a França. Panahi é muito eficiente em apresentar o terror de uma guerra civil por um ponto totalmente diferente: no impacto na vida de pessoas comuns.

Os trabalhadores, torturados pelo regime por ameaçarem uma greve, mostram que ninguém está impune em um universo em que o sistema coloca tudo e qualquer ação como um risco à manutenção do mesmo. Ao mesmo tempo, ele usa do humor e de situações e personagens atrapalhados – por vezes meio malucos -, para aliviar o peso da narrativa.

As atuações exageradas, recorrentes no cinema oriental, também fazem parte do longa e dão uma personalidade a mais para o conteúdo. Além disso, como todos os personagens não são confiáveis, por motivos diversos, desde loucura até a falta de conhecimento, a dúvida que paira no ar sobre o destino de um personagem importante é uma mola que mantém o espectador sempre tenso e engajado na trama.

E tudo culmina no terceiro ato. Um nó na garganta. Com idas e vindas, parte do grupo decide interrogar o sujeito tido como Eghbal. O que acontece durante esta conversa é um espetáculo de atuação, em um único enquadramento, que gera angústia e desespero. E, para o fim, o diretor opta pelo som, em um dos desfechos mais impactantes dos últimos anos. Nem vou contar muito, para não estragar a experiência.

Pontos negativos

Senti que a produção me perdeu em alguns momentos. Com a simplicidade dos objetivos e a repetição das circunstâncias, a trama por vezes caiu na falta de ritmo. Não atrapalha a experiência final, contudo, poderia ser melhor desenvolvida durante a rodagem do longa.

Outro aspecto que merece atenção é: contexto. Minha sugestão é assistir sabendo pouco ou quase nada da trama, mas o contexto geopolítico vale uma atenção, pois o espectador menos atento pode ficar bem perdido no decorrer da trama.

Vale a pena?

Com toda a certeza. Este é um dos filmes que estará na maior premiação do cinema e pode, quem sabe, abocanhar uma ou outra estatueta. Uma mensagem política forte em uma produção mais leve do que parece.

foi apenas um acidente
FOI APENAS UM ACIDENTE (2025)
Possivelmente, estamos diante do melhor final de um filme no ano
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Sobre o Autor

Leonardo Pereira
Leonardo Pereira
Jornalista. Repórter no Folha do Mate, podcaster no Na Tabela e HTE Sports. Pitacos sobre cinema e cultura pop no Entre Sinopses.