Crítica | Cassandra (2025)

Cassandra é uma minissérie alemã de seis episódios lançada pela Netflix em fevereiro de 2025. Na trama, uma família se muda para uma casa no interior após uma grande tragédia e, para superar as dores do luto, decidem recomeçar neste novo lar.
A grande questão é que essa casa era o lar de um cientista no passado e a equipou com um sistema de inteligência artificial, ou seja, temos aqui uma casa inteligente retrô. A IA que controla a casa é Cassandra (Lavinia Wilson), inspirada na falecida esposa do cientista. No entanto, quanto mais a família se envolve com a casa e a inteligência artificial, mais estranhas as coisas ficam, principalmente para Samira (Mina Tander), a matriarca.
Temos então uma história sobre família, luto, relacionamentos tóxicos, tecnologia e inteligência artificial em um subtexto de suspense e uma pitada de terror (quase nada, adianto!). Mas será que vale a pena conferir? Por que fez tanto sucesso? Vamos falar sobre isso nesta crítica de Cassandra, minissérie da Netflix.
Leia também: 9 filmes que abordam o tema da inteligência artificial
Uma história e várias camadas
Cassandra começa com um acidente de carro e logo corta para alguns anos no futuro com a chegada da família Prill a uma nova residência. A mansão estava anos abandonada e por isso vemos muitos móveis com uma estética retrofuturista, alguns cobertos por panos e algumas telas que, ao mesmo tempo em que remetem à tecnologia, parecem antigas.
A história fica interessante quando vemos o mesmo robô que estava na cena do acidente mostrado por alguns segundos na primeira cena. Apesar de estar desativado, o robô logo é consertado pelo filho mais velho da família, Fynn (Joshua Kantara) e a partir daí é que a história começa para valer.
Desde as primeiras cenas em que a I.A. Cassandra aparece em tela dá para sentir que há algo errado. Então ficamos com algumas opções: trata-se de uma tecnologia com defeito? Algo sobrenatural? Ou pura neurose. Pensamos nessas três principais possibilidades pois todas elas já foram exploradas de diversas maneiras no audiovisual. Isso é um dos pontos que podem tanto aproximar, quanto distanciar as pessoas da minissérie. Não tem nada de muito inovador, já assistimos a tramas como essa em outros formatos.
O que diferencia Cassandra de ser apenas mais uma obra é justamente o fato de ter várias camadas em sua história. Seja pelos flashbacks mostrando o passado da casa e a criação da inteligência artificial que ali está presente ou por nos contextualizar melhor a respeito das dinâmicas dos casais presentes na história.
As histórias de Cassandra e Horst e Samira e Davill mostram diferentes tipos de relacionamento tóxico e uma certa dose de violência contra a mulher, não necessariamente física, mas psicológica principalmente.
Quem é o verdadeiro vilão?
Levando em consideração apenas a primeira camada, há um embate muito evidente entre Samira e Cassandra. A robô quer tomar o lugar da mãe e para isso começa a descredibilizá-la desde seus primeiros encontros. Cassandra tenta fazer Samira pirar, colocar a família contra ela e sempre se mostrar uma mãe melhor. E, para piorar, Samira não encontra o apoio que precisaria ter da família, principalmente do marido. São nesses pequenos detalhes que a série ganha novas camadas e se torna mais interessante de assistir.
Por isso, quando conhecemos o passado de Cassandra e sua jornada até deixar de ser uma pessoa normal para se transformar na I.A. que quer tomar uma nova família para si, entendemos muito do que a levou até aquele novo estado. Tratar Cassandra somente como vilã pode ser um ponto de vista válido, mas há muito mais na personagem e na história do que somente uma avaliação mais rasa.
Na minha opinião, dava para ter explorado mais o que fez a personagem se tornar praticamente uma assassina lunática que não mede esforços para conseguir aquele objetivo, ter uma nova família. Mas a minissérie optou por ser menos didática, dando espaço para outras histórias (que nem todas foram tão úteis assim para o resultado final).
Atuações, direção e roteiro
Lavínia Wilson vive duas Cassandras, a mulher de verdade nos anos 60 e a IA nos tempos atuais. Ela manda muito bem, tanto como uma esposa frágil que descobre as traições do marido e tenta lidar com isso até passar por uma situação que praticamente acaba com sua vida e toma a decisão de aceitar fazer parte do experimento que a torna a IA que vemos no futuro. Como a robô, Wilson é ameaçadora e acolhedora ao mesmo tempo. O melhor trabalho de atuação da série é dela.
Mina Tander interpreta uma Samira com muitas facetas e camadas, uma mulher quebrada que quer recomeçar com a família, mas sem ter conseguido totalmente se recuperar dos recentes traumas que viveu. Apesar de ter ficado de lado principalmente no episódio 5 e parte do episódio 6, a série funciona muito por ela ser o contraponto a Cassandra.
Em relação aos coadjuvantes, ninguém se destaca muito. Franz Hartwig e Michael Klammer vivem os maridos, que, a depender da ótica de observação da série, podem ser os verdadeiros vilões. Enquanto Josua Kantara e Mary Amber Oseremen Tölle são mais acessórios em tela para a construção total da história. Há outros coadjuvantes sem muita importância também.
A direção da série opta por uma formatação bem simplória, com flashbacks complementando muitas vezes a história do presente. Recurso muito utilizado em séries. Aqui funciona bem, ainda que nem sempre a edição converse com o roteiro. Acho, inclusive, o roteiro o ponto mais inconsistente, com a série tendo momentos inspirados e outros onde decisões muito simples são tomadas.
Há também um problema de tom, com a direção não decidindo se a série vai para o lado do terror, para o lado do suspense psicológico… Três exemplos: a cena de Juno tomando banho na piscina, a cena em que David tem um dedo cortado por Cassandra e a cena em que Steve vai visitar Fynn.
Vale a pena assistir Cassandra?
A sua experiência com Cassandra vai ser ditada pelas expectativas criadas. Assistir à minissérie sem ler sinopse ou conferir os trailers vai te levar a boas surpresas, mas um breve conhecimento não atrapalha. Ainda que possa gerar expectativas diferentes.
Eu acreditava em ver um terror com inteligência artificial ou com um plot twist que levasse a algo sobrenatural. Não tive exatamente isso, mas uma trama que fala muito mais sobre família, relacionamentos tóxicos e silenciamento da mulher. A realização é bem feita, principalmente em termos de efeitos práticos. Não há o que reclamar nesse aspecto.
Acho que com alguns ajustes no roteiro a minissérie seria ainda mais interessante, mas o resultado final é apenas ok. Cassandra é uma minissérie que não revoluciona o gênero, mas entrega uma narrativa envolvente sobre luto, tecnologia e relações humanas. Poderia ir mais longe se aprofundando nas reflexões sobre memória e inteligência artificial, mas se perde em meio a tramas paralelas desnecessárias.
No fim, o resultado é agridoce: não é ruim, mas também não é tão memorável quanto poderia ser

Criação: Benjamin Gutsche
Elenco: Lavínia Wilson, Mina Tander, Michael Klammer, Joshua Kantara, Mary Amber Oseremen Tölle, Franz Hartwig e mais.
Duração: 6 episódios
Disponível em: Netflix
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