Crítica | Bodies Bodies Bodies (2022)

Crítica | Bodies Bodies Bodies (2022)

Quase todo ano sai um filme que aposta em uma narrativa muito similar. Um grupo de jovens se reúne em um espaço isolado, acontecimentos estranhos começam a rolar, mortes, suspeitos vão sendo criados e a tensão fica no ar. Desde os slashers mais antigos a filmes recentes, como Identidades em Jogo, essa fórmula não traz muita novidade e por isso os filmes costumam ser medianos.

Mas Bodies Bodies Bodies (no Brasil, Morte, Morte, Morte), lançado em 2022 e dirigido por Halina Reijn, tenta dar um novo olhar para esse tipo de história. E, mesmo com vários tropeços, o desfecho é tão inteligente e inesperado que faz o filme valer a pena.

Disponível na Netflix, o longa mistura comédia sombria, terror e crítica social em meio a uma trama sobre juventude, privilégios e descontrole emocional.

Qual é a história do filme?

Durante a passagem de um furacão, um grupo de amigos se reúne em uma mansão luxuosa para beber, dançar e jogar. Entre eles estão Sophie (Amandla Stenberg), Bee (Maria Bakalova), Alice (Rachel Sennott) e o anfitrião David (Pete Davidson). A brincadeira da noite é o jogo “Bodies Bodies Bodies”, uma espécie de pega-pega macabro que rapidamente foge do controle quando um dos participantes aparece morto.

Acreditando que há um assassino entre eles, o grupo entra em pânico e tenta sobreviver até o amanhecer, enquanto segredos, mentiras e traições vêm à tona.

Como disse antes, a premissa é bem simples e já foi explorada de maneira parecida em diversos outros longa-metragens. Definitivamente a história não é o ponto forte de Bodies Bodies Bodies, mas há elementos positivos sobre o filme. Antes, porém, vamos falar do que não gostei.

Pontos negativos

Os personagens são extremamente irritantes, e provavelmente isso é feito de propósito. Em filmes desse tipo, o ideal é criar ao menos um vínculo emocional com alguém, mas aqui é difícil torcer por qualquer um. Todos são retratados como jovens ricos, mimados e autocentrados, discutindo por motivos banais enquanto o caos se espalha.

Até mesmo temas sérios, como o uso excessivo de drogas e a superficialidade das amizades modernas, ficam apenas na superfície. As conversas soam falsas, os dramas não convencem e os diálogos, em vários momentos, beiram o insuportável.

O terror também não funciona bem. O longa aposta em e jump-scares previsíveis, mas a tensão nunca realmente acontece. Parte disso vem do fato de o público simplesmente não se importar com quem está em risco.

Pontos positivos

Apesar disso, o filme tem méritos técnicos. A edição é ágil, o ritmo narrativo funciona e a trilha sonora combina bem com o tom caótico da história. A diretora Halina Reijn faz escolhas interessantes ao filmar quase tudo com luzes de celulares e lanternas, o que cria uma atmosfera claustrofóbica e realista, ainda que em alguns momentos o visual escuro atrapalhe a compreensão do que está em cena.

Outro acerto está nas falsas pistas. O roteiro engana o público de forma criativa, mantendo um senso de mistério mesmo quando a trama parece não levar a lugar algum.

Mas é no final que Bodies Bodies Bodies realmente brilha. Os últimos dez minutos viram completamente o jogo e mostram que a história, na verdade, é uma crítica à forma como a geração atual se comunica, ou, melhor dizendo, como não se comunica. Boa parte dos conflitos poderia ser resolvida com uma simples conversa, mas os personagens preferem se atacar, criar suposições e competir por atenção. É uma sátira cruel e inteligente sobre o egocentrismo e a necessidade de validação social.

Que acerto sensacional os 10 minutos finais do filme traz e deixam para o público a sensação de que valeu a pena a jornada. Não sei se foi um final divisivo para a maioria das pessoas, mas para fim foi o que fez o filme ganhar pontos positivos de verdade.

Vale a pena assistir?

Bodies Bodies Bodies é um filme que começa como mais um terror genérico e termina com uma crítica afiada à juventude digital. É irritante em muitos momentos, sim, mas também é propositalmente assim. Sua força está em mostrar o quanto as relações modernas são frágeis e baseadas em aparências.

Com uma direção segura, boa edição e um final que surpreende, o longa acaba compensando seus personagens insuportáveis e seus diálogos fracos. No fim das contas, a resposta sobre gostar ou não dele depende totalmente de como você reage à revelação final.

Para mim, ela fez tudo valer a pena.

Bodies Bodies Bodies
Bodies bodies bodies
Bodies Bodies Bodies falha enquanto terror, mas ganha pontos por um desfecho surpreendente que critica uma geração que não sabe e comunicar.
3

Direção: Halina Reijn
Elenco: Amandla Stenberg, Maria Bakalova, Myha’la, Rachel Sennott, Chase Sui Wonders, Lee Pace, Pete Davidson e Conner O’Malley.
Duração: 1h34min.

Sobre o Autor

Heider Mota
Heider Mota
Baiano, 29 anos, jornalista. Gosto de dar meus pitacos sobre filmes e séries por aqui.

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