Crítica | Atena

É interessante ver como cada vez mais obras diferentes do cinema brasileiro começam a ganhar destaque nas salas de cinema. Há pouco tempo, muitas dessas produções mais independentes ficavam restritas a festivais ou lançamentos direto para TV ou streaming. Felizmente essa realidade vem mudando e proporciona que filmes como Atena, dirigido por Caco Souza e estrelado por Mel Lisboa e Thiago Fragoso, cheguem ao circuito nacional em 31 de julho em mais de 140 cinemas pelo país.
Na trama, Atena, marcada pelos abusos do pai na infância, decide fazer justiça criando um grupo que atrai e julga agressores. Com a ajuda do jornalista Carlos, ela encontra seu pai em Montevidéu e inicia uma busca por vingança, confrontando os limites entre justiça e retaliação.
Mas será que o filme funciona? Vamos falar a respeito a seguir. Vem comigo na crítica do filme Atena.
Uma história de vingança
Filmes em que acompanhamos um protagonista que busca vingança e faz justiça com as próprias mãos existem aos montes. Até mesmo uma categoria de longa-metragens estrelados por mulheres se vingando de abusadores também não é uma novidade. Um exemplo é Bela Vingança (2020).
Então, Atena não nos apresenta uma trama original, mas que tem suas peculiaridades. Em uma das primeiras cenas do filme vemos a nossa personagem principal, interpretada por Mel Lisboa, atraindo atenção de um homem apenas para conseguir acabar com ele. Bonita, charmosa e sedutora, Atena usa um ferro quente para marcar suas vítimas e deixar claro o motivo que a levou a eliminar aquele homem perverso.
Logo em seguida, o filme mostra uma cena forte de violência que pode despertar gatilhos. O filme consegue mostrar bem essa questão da violência contra a mulher, e pode ser chocante para muita gente acompanhar isso. Infelizmente a ficção retrata muito da realidade, e pouco antes de assistir ao filme para fazer a crítica saiu a notícia de uma mulher covardemente agredida com mais de 60 socos pelo namorado. Esse criminoso certamente entraria na mira da justiceira Atena.
Mas a sede de justiça de Atena não veio apenas do lugar de empatia, mas sim de uma vida de traumas e abusos sofridos dentro da própria casa durante a infância. Ela transformou sua dor em uma forma de ajudar mulheres e crianças a não passar mais por tudo que ela mesma sofreu um dia. Por isso, Atena (o filme) tem algo a dizer, mesmo que nem sempre a mensagem seja transmitida por causa de uma execução falha em muitos aspectos.
O que não funciona
Atena é um filme que tem boas intenções na mensagem que quer passar, principalmente ao retratar as injustiças que mulheres e crianças que sofrem abusos passam de, além da dor pela situação, também não encontrarem alento e suporte das autoridades. Porém, há muitos deslizes no filme que, como mencionei anteriormente, prejudicam a transmissão dessa mensagem.
Trata-se de um filme independente e de baixo orçamento, mesmo contando com duas estrelas do cenário da atuação nacional. Com isso, é notável a falta de um refino mais técnico em detalhes como deixar aparecer um microfone em cena logo nos primeiros minutos de filme, trilha sonora sendo colocada em um momento errado e outra cena que demandaria trilha ficando sem, edição e montagem prejudicando principalmente cenas de combate (provavelmente para esconder a deficiência da coreografia de lutas).
Um dos meus maiores incômodos foi com a falta de profundidade dada a personagens e situações, que acontecem e desaparecem na mesma velocidade. Se a proposta é apresentar uma vigilante vingadora seria interessante ver mais dos seus bastidores. Como ela acha as vítimas, como obtém informações, como se prepara para agir. Tudo isso é abordado de forma muito rasa em tela.
Além disso, o filme conta com facilitações narrativas incríveis. Informações confidenciais ou super difíceis de acessar são encontradas conforme a conveniência do roteiro. Deslocamentos também não fazem o menor sentido, como um personagem sem qualquer tipo de veículo e ferido chegando a um local antes de outra que tinha mais recursos no momento.
Há uma escolha em mostrar como as autoridades pouco ou nada agem, mas isso também tira muito da verossimilhança, pois é difícil pensar que tanto a polícia, quanto a mídia e as redes sociais não estariam comentando bastante a respeito dos acontecimentos. Diversos homens abusadores sendo mortos em uma mesma cidade, isso com certeza atrairia mais atenção do que é mostrado no filme.
Pontos altos
A dupla Mel Lisboa e Thiago Fragoso é a melhor coisa do filme. Os dois, principalmente Fragoso, estão níveis acima do restante do elenco e entregam mais do que o roteiro os dá para trabalhar. Pena que há poucas cenas deles justos e que o desfecho passe uma mensagem que talvez não faça muito sentido com o filme como um todo. Gostaria de ter visto mais do lado investigativo do jornalista Carlos, interpretado por Fragoso. Assim como seria mais legal ter visto os bastidores das ações da Atena, vivida por Lisboa.
O suspense construído pelo filme, principalmente a cada cena em que a Atena vai entrar em ação também funciona. Você teme pelas ações que os homens possam fazer com ela, pena que isso é interrompido por cenas de ação muito mal construídas e editadas.
Vai dar polêmica
Se até situações bem mais leves estão causando polêmica, não tenho dúvidas que Atena pode gerar burburinho. Na minha opinião, o filme enquanto obra ficcional pode muito bem retratar uma mulher vingativa fazendo justiça com as próprias mãos contra abusadores. Ora, não temos tantos filmes de homens matadores fazendo justiça e vingando pelos mais diversos motivos? Então, pra mim, isso está longe de ser um problema.
Entendo quem ache que o filme pode retratar a violência como algo a ser aplaudido ou glamourizado, porém não interpretei dessa forma. Vamos ver no que vai dar, mas já adianto que espero ver opiniões polêmicas e repletas de controvérsia a respeito do filme.
Vale a pena assistir Atena?
Atena é um filme com uma história pouco original, mas violenta e chocante. Aborda temas pesados, mas derrapa em suas limitações técnicas e orçamentárias. Faltou maior refino nos detalhes e um elenco de suporte mais forte para fazer jus às boas atuações de Mel Lisboa e Thiago Fragoso.
É um filme com muitos defeitos, mas também com qualidades e, principalmente, coragem. Vale assistir pelo apoio aos filmes nacionais independentes. Mas não acho que será um filme que vai marcar ou ficará na memória das pessoas por muito tempo.

Direção: Caco Souza
Ano: 2025
Elenco: Mel Lisboa, Thiago Fragoso, Lui Mendes, Gilberto Gawronski, Bruno Krigier, Mari Amaral, Jéssica Nigro e mais.
Duração: 1h21min
Leia também:
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